Caro Colega,
Desculpe voltar novamente ao assunto, mas não considero o tema requentado.
Ou nos defendemos das infâmias que a especialidade tem sido vítima, ou abdicamos de nossa dignidade.
Aos fatos: a imprensa, de longa data, associa malversação do dinheiro público na área da saúde com o “sangue” e, por conseqüência, com nossa especialidade. Muitos publicações recentes da imprensa documentam este fato. Culmina esta seqüência de ignomínias a recente publicação da revista Veja, que agora, de forma explícita, nos atinge diretamente. A revista, em sua capa, ao anunciar a matéria “Máfia dos sanguessugas: A lista da vergonha”, exibe, pasmem, a imagem de uma bolsa de sangue. Há que ficar claro que o crime abordado pela revista se refere ao desvio de verbas públicas quando da compra de ambulâncias e equipamentos médicos. Nada tem a ver com nossa especialidade, muito menos com os profissionais que se dedicam a esta área da medicina. Por outro lado é universalmente conhecido que a imagem da bolsa de sangue simboliza a especialidade hematologia e hemoterapia, os hemocentros, os bancos de sangue e todos os profissionais, médicos ou não, voltados para esta área médica. A imagem da bolsa de sangue inserida na capa da revista para ilustrar a matéria, inquestionavelmente, remete à nossa atividade profissional.
Frente a estes fatos, mantivemos insistentes contatos com a revista, que se recusou a publicar nossa correspondência na seção de “cartas do leitor”, pois dizia não concordar com nossos argumentos.
Apresenta agora, na publicação de 9 de agosto, comunicado dizendo que “Diversas entidades ligadas à área da saúde escreveram para a redação reclamando do uso da bolsa de sangue na capa da edição que tratou da máfia dos sanguessugas”. Por fim, a revista conclui: “Veja não acredita que seus leitores possam fazer confusão entre os atos praticados por meliantes abancados no Congresso, que sugaram recursos do Orçamento destinados à saúde, e a nobre ação dos que fazem doação voluntária de sangue”.
É decepcionante sua conclusão. É tripudiar da nossa inteligência.
Fica evidente a dificuldade que a revista tem em reconhecer um erro. Isto é grave para um veículo da abrangência da Veja. No nosso caso, com argumentos absolutamente irrefutáveis, a revista não consegue reconhecer um simples erro de imagem em sua capa.
A Veja fica devendo. É decepcionante a sua conclusão. Cabe perguntar: se a revista tem este entendimento tão equivocado de assunto tão óbvio, como será o seu “entendimento” de assuntos mais importantes, de interesse nacional, onde a isenção é fundamental?
Deixo para o colega tirar suas conclusões.
Carlos Chiattone
Presidente da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia
P. S. Já enviamos correspondência sobre o assunto para a AMB, CFM e APM. Também redigimos um artigo intitulado: “Sanguessugas: um prejuízo que a imprensa ainda não mostrou”, que está no Conselho Editorial da Folha de São Paulo
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